Protocolo 192: comunicado à Família Real

Nana Rodrigues (Florianópolis, SC)

Que fique claro não se tratar de uma carta. Que fique bastante claro o teor da comunicação aqui feita e de que não se trata de uma carta de uma mãe para seu amado filho. Trata-se tão somente de um comunicado de uma Imperatriz a seu jovem Imperador. Não somos uma família real, somos a Família Real. Eis a nossa realidade.
Jovem Imperador,
Que sejam longos os seus dias. Tão longos quanto possam ser os dias desta terra. Repletos de gloria e o sabor de muitas e grandes vitorias. Que seus súditos se curvem ao vê-lo passar e sejam imensas as alegrias de seu povo ao saber que estais no comando. Sua imensa capacidade os orgulhará. Seus louros não terão fim. Serão grandes suas conquistas e todos lembrarão de seus feitos e de seu nome, ainda que em mil anos.
A quem queremos enganar? Quem? Eu não suportaria falar nem mais uma palavra de maneira tão vergonhosamente falsa e imoral. O tédio de dias como os nossos não tem fim. Estamos fadados a viver o que ninguém vive. Sequer nós mesmos. A astucia é fazê-los acreditar que tudo o que não somos é o que sempre seremos. E maior astucia ainda seria a de fazer-nos acreditar. Como pude ser tão infiel?
Os decretos que devem ser assinados e homologados junto a corte seguem de navio para que vossa Majestade possa dar continuidade a vossa governança. Eles deverão ser recebidos no máximo até as festividades da Páscoa. Dê ao povo um discurso magistral, digno de vossa ossatura.
Eles não merecem seus esforços para que possa dar certo o que nunca dará. Seus esforços são desnecessários. Esta terra afundará por si só, sem que se precise mexer um tronco ou um alqueire de barro. Aqui já sabemos o fracasso de nossas desventuras, mas ai ainda acreditam que algo bom possa surgir de tantos infortúnios. Quiçá pudéssemos voltar atrás. Quiçá nunca ter colocado uma só Nau ao mar. Agora sabemos o valor de nossas conquistas e o sofrimento que elas causaram. Não deveríamos ter saído de nosso lugar. Nunca saberemos.
Estamos providenciando novos empregados para que sejais servido com toda pompa e formalidade que deveis. Conquanto acostume-se a ordenar tudo aquilo que imagina como certo, pois eles desejam ser ordenados, são selvagens. A corte está de acordo com suas bem-aventuranças, mui digno Imperador.
O rei não sabe mais o que fazer com tantos desgostos advindos deste além mar. Queria poder chama-lo pelo nome, mas isso já me fugiu ao controle e a mente. Seria desastroso confessar que não lembro o nome do homem com quem me casei e tive filhos. Deveria ter anotado num papel. Ele diz que se pudesse recolheria todos os que levou e fecharia as portas deste desastroso paraíso vez por todas. Perceba que na maioria das vezes não é possível voltar atrás.
Por hora sabeis que aqui estamos todos repletos de jubilo com a possível visita papal até vosso reino e que muitos serão os lucros deste encontro. Vossa Santidade percebeu a tempo a honra de compartilhar de vossa presença nobre e cheia de vigor. Porte-se como tal.
Seus irmãos cobiçam tanto o que tens, que se caíres por terra, com febres e convulsões impossíveis de se diagnosticar, saibas que será por este ódio que cultivam junto a ti. Mal sabem a sorte que têm de não serem quem sois. Poderiam gozar a vida que lhes resta, com toda pompa e sem sequer pensar nas responsabilidades, mas preferem o fulgor da inveja pelo que não lhes é de direito. São inúteis fabricados pelo meu próprio ventre.
Pratique a arte da guerra com o mesmo afinco que tens dedicado a leitura das cartas de suas amantes e não tome para si a única arte que seu pai soube fazer. Aquele inútil. Não se trata de um conselho e sim uma advertência. Suportei tudo o que pude e mais do que qualquer outra poderia suportar. Agora deposito em ti, filho amado, todas as esperanças de que o futuro consiga ser menos penoso do que foi o passado e tem se mostrado o presente. Que dádiva é essa de que tanto falam? Sou uma mulher que sabe exatamente o que é não ser.
Desespera-me saber que há entre nós um mar imenso. O sal entre nossas emoções nos faz desejar ver um fim que não se aproxima e não se sabe se algum dia chegará. Querido Príncipe de meus dias remotos, retorne a seu lar. Abandone tudo o que pode acreditar que construiu e venha viver dias de paz com sua amada mãe.
Trata-se de um comunicado. Leia-o em voz baixa, não peça para que o façam em seu favor. Retire-se da companhia dos que o cercam e dedique-se a estudar isto que lhe escrevo como se dessas palavras dependesse sua vida.
Realmente, se queres ter uma vida, disto ela depende. E não é a Rainha, Imperatriz ou sei lá o que, ou é a Rainha que vos fala. Já não podemos mais nos separar. Dias e noites vividas como ela viveria. Agradando a corte com acenos e cobiças. Somos iguais.
Não podemos voltar atrás. E isso desespera meu tão fraco coração. A politicagem é o que nos corrói. Nosso começo e nosso final. Corrompe tudo o que nela encosta e somos tomados por ela até o fluido que excretamos. Ela está em nossa mente em cada passo que damos, pensando que é feito por nós mesmos. Não quero este triste fim para ti, meu mui especial e querido filho de ventre. Sangra-me as entranhas de imaginá-lo daqui alguns anos escrevendo a seus filhos assim como agora eu o faço. Em entrelinhas e mentira. Em comunicados e decretos.
Trata-se de um comunicado. Leia-o defronte aos súditos no domingo de Páscoa. Grite se for preciso, para que todos compreendam o que se passa dentro de meu sofrido coração de mãe. Uma mãe que não quer se separar do único filho que realmente amou e que agora se encontra tomado de poder, soberba e luxúria. Numa terra selvagem, inóspita e distante. Uma terra que até então não existia e deveria não ter passado nunca a existir.
Seu pai não conseguirá compreender sua decisão, mas terás o meu apoio. Terás tudo o que uma mãe um dia poderá dar a seu filho mui amado e seus dias serão ainda mais pacíficos. São dias opacos os que vivemos longe um do outro.
Dê especial ênfase aos papéis referentes a Izabel. Que sejam tratados com toda a brevidade que merecem e que se tornem profícuos. Não suporto ouvir-lhe sequer o nome. Izabel. Deles dependem outros que seguirão no próximo navio. Mandarei as coisas que me pediste, todas elas. Esperemos que os ignóbeis que lhe seguem não façam uso delas antes mesmo que possa aprecia-las.
Leia-a quando vossa Santidade estiver presente. Para que ele saiba que o que nos exigem é demasiado para nossa força. Que todos os que desejam ser o que nós somos, isso que aparentamos ser, sejam brutalmente punidos por nos cobrarem com tamanha crueldade. Para o inferno com este Papa de meia pataca e todos os que riem de nossas costas. Eu estou farta!
Meu filho amado e querido. Não se trata de uma carta. Trata-se de um ato de desespero. Escrevo como quem divaga, mas com uma corda amarrada aos meus punhos e pescoço. Quisera pudesse ser apenas uma mãe que suplica pela volta de seu filho. Quisera pudesse ser o que qualquer mortal é. Mas nosso fardo deve ser carregado com o orgulho que ele fomenta. Esqueça de vez por todas a loucura de querer voltar a corte. Eles aqui andam loucos e o destruirão ao seu primeiro pisar no cais. Seja coerente e faça com que esta nova província que agora é seu condado, seja orgulho deste velho e rançoso continente. Estamos para além dessas coisas que todos sentem e sabem. Somos aqueles que permanecerão depois que tudo que eles conhecem já tiver partido. Somos o amanhã meu excelente Imperador. Que falem todos o quanto puderem falar. Que esbraveje seu pai e irmãos. Nenhum deles é digno de vossa pena ou misericórdia. Faça o que deve ser feito e o faça de imediato.
Não somos apenas uma família real, somos a realidade de todas as famílias que se inspiram em nós para dar norte a suas vidas vazias e perdidas. Somos motivo de celebração e orgulho. Sejamos em vida o que não foram nossos antepassados. Gloria, luz e majestade sem fim.
Vida longa ao nosso tão digno Imperador, que viverá e reinará para sempre!
P.S. Se quiser voltar, estarei aqui, de braços aberto e pronta para lutar.
Sua mãegestade, a Imperatriz.

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